Depois de mais de 30 anos a celebrar catequese com crianças e adolescentes e a escrever vários livros sobre catequese e teologia, especialmente para a evangelização de crianças, fui convidado para realizar a mesma missão com idosos, num Centro de Dia, com pessoas que na sua maioria são octogenárias e nonagenárias.
Aceitei sem reservas, pois sempre considerei que a fé que se transmite a mulheres e homens, crianças e adultos, pessoas com e sem deficiência é a mesma. A transmissão da fé pode comparar-se ao ofício de casamenteira, pois tem como objectivo estabelecer uma relação de amor e para toda a vida entre aquela pessoa a quem é transmitida a fé e Deus, normalmente numa primeira aproximação à pessoa de Jesus.
Enamorar-se de Jesus não tem escolha de idade, sei pela experiência pastoral que tenho que esta paixão tanto toca crianças de tenra idade como velhos, muito velhos, alguns às portas da morte. Chamo velhos e não idosos, porque ser velho é uma graça de Deus, não é razão de vergonha; os trapos não envelhecem porque não têm natureza biológica, desgastam-se e deitam-se fora, não voltam a ter utilidade, não sofrem envelhecimento dos tecidos do corpo, como acontece com as pessoas, mas também os animais e plantas.
Talvez por isso, eu não entendo por que dizem que “velhos são os trapos”.
Se apresentar crianças e adolescentes a Jesus cria em mim um sentimento de felicidade imensa, o mesmo acontece quando se trata de velhos, pois nalguns casos é dar-lhes uma última oportunidade de sentir nesta vida o amor de Deus, a coisa mais maravilhosa que existe no Universo, na Vida.
Ajudar um velho a aproximar-se de sacramentos depois de décadas de afastamento, ou nalguns casos, pela primeira vez, é sentir uma lança do Espírito Santo a atravessar-me o coração.
Não é uma glória para mim, não é motivo de orgulho, pois o orgulho é normalmente pecado, é de modo invisível fazer alguém feliz e, creio, cumprir a vontade de Deus.
Quando dou a mão a um velho, remo contra a onda que varre o mundo excluindo, não só os velhos, mas as pessoas com deficiência, as pessoas com doenças terminais, enfim, todas as pessoas que maçam, que incomodam, que dão trabalho, que são chatas, que limitam a possibilidade de desfrutar prazeres do mundo, luxos e luxúrias, ócios inutilidades.
Esta
é uma fotografia da minha avó Lusitana. Nasceu rica e morreu pobre. Viveu uma
vida difícil, muito difícil, mas nunca lhe virou as costas. Nasceu em 1900,
quando as meninas da aldeia, mesmo ricas, não iam à escola. Não aprendeu a ler,
mas descobriu os números e as contas. Era inteligente e principalmente esperta.
Faleceu entubada, numa clínica, em sofrimento atroz. Não usou cosméticos, teve
oito filhos e tinha a pele tão macia como nunca conheci outra pessoa, a não ser
bebés e mulheres na gravidez. Teve a graça de chegar a velha, por vontade de
Deus. Idosa? Desde que nascemos todos temos uma idade que vai avançando ao
longo da vida. Todos somos idosos. É uma coisa sem eira nem beira dizer que um
velho é idoso e uma criança não é. Todos temos a nossa idade. Recordo o carinho
com que a minha mãe tratava a minha avó Lusitana, que era sua sogra. Lembro-me
de tanto que aprendi com a minha avó e com o meu avô. Infelizmente, nestes dias
que correm, deixou de haver tempo para o convívio e aprendizagem entre avós e
netos. Com esta alusão aos meus avós quero demonstrar o amor e a ternura que sinto pelos
velhos e pelas velhas. A velhice é um dom de Deus reservado apenas a alguns,
Deus lá sabe porquê, mas é uma realidade que ninguém sabe quando será a sua
hora de passar desta vida.
Quão melhor seria este mundo se todos nós víssemos em cada velho e em cada velha a razão porque existimos. Sem os seus antepassados, ninguém existia. Os velhos não são descartáveis, como o Papa Francisco enfatiza constantemente, são fonte de sabedoria e de vida.
Faça os seus comentários
